Trabalhar remotamente não significa trabalhar em casa para sempre

Trabalhar remotamente não significa trabalhar em casa para sempre

Trabalhar remotamente não significa trabalhar em casa para sempre 150 150 Super Anfitrião
As discussões sobre home office e o que esta forma de trabalhar provocou têm sido interessantes, ainda que pareça que todos os profissionais passaram a ser muito mais produtivos, cocriativos, confiáveis, colaborativos e engajados durante a pandemia do novo coronavírus. Todos nós viramos verdadeiros gênios, ou quase. É tudo de bom, não? Supervalorização ou esperança de que seja assim?

O equilíbrio entre vida pessoal e profissional trouxe à pauta diária o que seria necessário para criar uma rotina que evitasse interrupções, falta de concentração, não prejudicasse a produtividade, mas que aceitasse crianças passando, descabeladas ao acordar, nas costas de quem estaria em um call ou na tela compartilhada de uma reunião pelo Zoom, assim como latidos e miados passaram a fazer parte do fundo musical, sem repreensão dos donos.

No começo, a gente pedia desculpa e falava algo para justificar o novo cenário. Agora, o estranho é explicar com cara de sem graça, se desculpar ou não dar atenção a alguém de casa que te trouxe um café, à criança que interrompeu ou ao pet que subiu no seu colo.

Os que ficaram deprimidos, com dores nas costas causadas pelas cadeiras erradas e por conta de um cafofo sem iluminação adequada ou uma janela que ventilasse agradavelmente, já que ar condicionado não fez parte do layout daquele que era o quarto da bagunça e virou office, sentiram-se isolados e a solidão veio, mas estão mais presentes nas lives de grupos terapêuticos e se veem como os “inadequados e inflexíveis” ou fora da curva do novo normal. Porque para variar, no mais das vezes, tudo parece “mundo de Caras”, fotos e posts só do que é bonito, feliz, saudável, atraente, tendência ou da moda, elaborado dentro dos padrões definidos como bons.

Os processos de seleção passaram a avaliar o grau de flexibilidade que um profissional tem, analisando quão feliz ele ficou ao trabalhar em casa no seu quarto, enquanto o/a cônjuge trabalhava na sala, no corredor dos quartos os filhos faziam aula online, e o bebê era alimentado na cozinha pela sogra…. Se disser que não foi legal, pode significar inflexível? 

A pandemia transformou as relações de trabalho e a forma como o home office é encarado. Foto: Pixabay

O sonho de trabalhar em uma empresa legal, com um escritório moderno, e se relacionar com pessoas diferentes, com valores e propósitos similares, com quem a gente trocaria ideias e aprenderia ou compartilharia algo, parece coisa de outro mundo e que nunca foi bom, que jamais deu prazer levantar numa segunda-feira e se arrumar para ir àquele ambiente que, dos sonhos, tinha virado realidade. 

Trabalhar no horário convencionado versus aquele que nos faz bem, escolhemos e produzimos melhor passou a fazer parte da realidade dos empresários que não acreditavam nesta possibilidade, desconfiavam de quanto os funcionários cumpririam as metas e seguiriam as regras de suas organizações. Durante 120 dias de confinamento, já que sentimos mais do que isolamento social, o mindset empresarial mudou de um jeito jamais visto. 

Importante contextualizar o que é flexibilidade, adequabilidade, engajamento, equilíbrio e o novo normal. Isso é diferente de descrever uma conjuntura em função de uma pandemia e suas consequências! Há soft skills muito relevantes as serem analisadas e quais são elas diante de um cenário tão indefinido, ainda?

As dicas de como estruturar o home office vem desde a década de 1990, quando franqueados atuariam em suas casas e precisariam criar exatamente o mesmo ambiente de trabalho de hoje, sendo que atualmente contam com a internet que começava a engatinhar à época. E não era coisa de microfranquia não! A gente ria gostoso quando um franqueado de fast food, que vinha do mercado corporativo, de grandes empresas, perguntava onde seria a sala dele na loja a ser instalada na praça de alimentação. Ele fazia a gestão administrativa e financeira em sua casa, mas a operação era na loja, sem mesa de escritório, lógico.

Importante entender que o trabalho remoto compreende várias possibilidades e pode ser uma ótima escolha para quem não quer trabalhar em casa nem na empresa todos os dias. Os coworkings já vinham fazendo tanto sucesso com empresas e profissionais pois pode-se ter a empresa alocada em um deles, alugar uma sala individual ou ficar em um espaço compartilhado por várias pessoas – depende do perfil e do bolso de cada um.

Ainda existe a escolha de pegar seu smartphone, tablet, iPad ou notebook e parar em uma cafeteria, escolher uma mesa e trabalhar de lá, só ou com alguém da equipe, fornecedor ou cliente. Conveniência e liberdade são as palavras que definem esta escolha. Fatores envolvidos: astral do dia, agenda, reuniões e distância dos locais. Disciplina e planejamento fazem parte do pacote. 

A interação e a conexão com a empresa e time não deixaram de existir e se mostram até mais felizes, vamos assim dizer. Já o se encontrar presencialmente com alguém devido ao trabalho, porque quer ou precisa por um motivo maior que a obrigação é bem sedutor e produz a deliciosa sensação de que valeu a pena. 

O anywhere office consiste nesta proposta de podermos trabalhar onde for melhor para todos e não apenas para si. O que fizer melhor para cada um de nós e refletir no bem de todos ligados, direta e indiretamente, à empresa e à marca permite esta escolha, A questão que fica é quanto você está pronto para lidar com tanta liberdade com responsabilidade? 

O anywhere office não aceita anyone agindo anyway, ou seja, o trabalho remoto não é para qualquer um que trabalhe em qualquer lugar, de qualquer jeito. Simples assim e a escolha continua sendo de cada um.

* Ana Vecchi é consultora de empresas, fundadora e CEO na Ana Vecchi Business Consulting, professora universitária e de MBA, pós-graduada em marketing e com MBA em varejo e franquias. Atua no franchising há 30 anos, no ciclo de vida das empresas, da criação à expansão de negócios e ocupação estratégica de mercado. É mentora de investidores e empreendedores, além de conselheira de empresas tradicionais e startups.

Fonte: https://pme.estadao.com.br/blogs/blog-do-empreendedor/trabalhar-remotamente-nao-significa-trabalhar-em-casa-para-sempre/

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