Um roteiro turístico pelas águas que banham a capital

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Do alto do planalto central brasileiro, a capital federal criou raízes no coração do Cerrado, onde a água brota do chão e corre em direção aos córregos e rios. Conhecido como o “berço das águas”, o Distrito Federal se expande seguindo o fluxo que emana dos lençóis freáticos, abraçado às mais de mil nascentes estimadas na região demarcada pelo bioma, visto como uma verdadeira caixa d’água no centro do país.

Além das curvas e linhas que compõem o projeto arquitetônico proposto por Oscar Niemeyer, a luz que entra nos cobogós e reflete os azulejos de Athos Bulcão é apenas um detalhe frente à riqueza natural do centro-oeste. Dentro e fora do quadrilátero que emoldura o DF, se espalham diversos atrativos da fauna e da flora, que crescem ao redor de pequenas nascentes e cachoeiras de água gelada.

Embalados pelo ritmo da bossa nova, não é de se admirar que Brasília inspire artistas e receba homenagens em verso e em prosa. Há 61 anos, a convite de Juscelino Kubitschek para uma temporada, Tom Jobim e Vinícius de Moraes caminhavam em volta do Catetinho e, quando ouviram um barulho de água, perguntaram ao vigia de onde vinha o som.

“É aqui que tem água de beber, camará”, ele respondeu. Segundo relato de Jobim, assim os artistas conheceram a fonte, de água e de inspiração para a primeira música composta na capital federal.

Raridade ecológica

Em Brasília, a riqueza hídrica que floresce dos lençóis freáticos alimenta bacias hidrográficas inteiras. O bioma da região central brasileira possui grande importância estratégica para o abastecimento e manutenção de uma rica biodiversidade.

Na Reserva Ecológica Águas Emendadas, por exemplo, a singela Lagoa Bonita segue em direções opostas e dá origem às bacias hidrográficas Araguaia-Tocantins, ao norte, e ao sul ajuda a formar a do Paraná — duas das maiores do país. A mesma vereda, um tipo de vegetação do Cerrado — de seis quilômetros, repleta de buritis — produz água para as duas bacias, banhando o DF e oito estados, além do Paraguai, da Argentina e do Uruguai.

As principais bacias do Distrito Federal são: São Bartolomeu, Preto, Descoberto e Maranhão, que drenam cerca de 95% do território. Aqui estão as cabeceiras de afluentes de quatro dos maiores rios brasileiros – o Rio Maranhão (afluente do Rio Tocantins), o Rio Preto (afluente do São Francisco) e os rios São Bartolomeu e Descoberto (tributários do Rio Paraná).

“Essa unidade preserva uma significativa diversidade biológica em uma composição bastante singular. Do ponto de vista ecológico, eu acredito que ainda há muito o que saber sobre a grandiosidade dessa nascente de bacias hidrográficas. Nesse sentido, a conservação é fundamental”, pondera José Francisco Gonçalves Júnior, biólogo e professor do departamento de Ecologia da Universidade de Brasília (UnB).

Em sintonia com a biodiversidade

Justamente por ser uma área repleta de nascentes, a região de cerrado que engloba o DF e o Entorno não tem rios caudalosos, um ambiente propício para o surgimento de cachoeiras como a que Iago Aviani, 25, costumava se banhar quando criança, no fundo do quintal da casa da avó, próximo à região do córrego Taboquinha.

O pequeno paraíso verde, com 2 mil hectares, nascentes, 199 espécies arbóreas e 30 de fauna nativa que fica localizado entre o Jardim Botânico e o Paranoá foi o primeiro contato que o engenheiro teve com a natureza, e serviu para criar um importante vínculo entre Iago e as pequenas quedas d’água que nascem no DF.

“Foi a primeira cachoeira que eu conheci, de fato, e agora não existe mais, por causa da construção de uma tubulação ali perto. Eu estou triste até hoje, porque parte da minha infância foi destruída ali”, compartilha. “Com ela eu aprendi a gostar mesmo da natureza, fruto de uma vivência muito significativa que eu tive frequentando a região”.

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Em outubro do ano passado, o Instituto Brasília Ambiental (Ibram) convidou a população da região para participar da consulta pública on-line com o objetivo de auxiliar na criação da Unidade de Conservação Refúgio de Vida Silvestre (RVS) do Taboquinha. O processo segue em etapa de estudos e diálogo com a população local.

Iago tomou gosto por desbravar os pequenos paraísos brasilienses e, desde então, costuma buscar novos cenários na capital e nos arredores. Entre os pontos que mais frequenta no DF em busca de um mergulho, ele elenca a Cachoeira do Urubu, no núcleo rural do Lago Norte e a do Operário, próxima ao bairro Taquari.

“Desde criança eu sempre tento me reconectar, gosto de manter esse contato com a natureza porque purifica mesmo, é notável como eu me sinto melhor. Ser do DF com certeza me proporciona mais proximidade por conta das cachoeiras, córregos e rios aqui em volta”, garante.

Preservação ambiental

O desaparecimento da cachoeira que Iago frequentou na infância é sintoma de uma preocupação ambiental significativa. O cuidado com essas bacias é de grande importância para se assegurar o acesso sustentável à água de qualidade, em quantidade adequada à manutenção dos meios de vida, do bem-estar humano e do desenvolvimento socioeconômico na capital.

Ao Metrópoles, a Secretaria do Meio Ambiente do DF afirma que está executando a recomposição da vegetação nativa em Áreas de Preservação Permanente (APPs) de nascentes, áreas de recarga hídrica e demais APPs degradadas ou alteradas.

A pasta também coordena o Comitê de Gestão e Monitoramento das Áreas de Proteção de Mananciais – APMs, e tem a intenção de auxiliar o Ibram a retomar o Programa Adote uma Nascente, com o objetivo de apoiar e orientar a adoção de medidas de preservação das cabeceiras de rios no DF.

Cachoeira do Urubu

Segundo o professor José Francisco Gonçalves Júnior, a capital federal ainda tem um longo caminho a percorrer quando se trata da conservação da riqueza hídrica.

“Atualmente, em função do crescimento não planejado de Brasília, a cidade precisa buscar água a centenas de quilômetros. Por conta do adensamento populacional e o surgimento de novas regiões administrativas, como alguns exemplos construídos sobre áreas de abastecimento do lençol freático, isso tem prejudicado os mananciais e a impermeabilização do solo”, alerta.

Na opinião do especialista, falta no DF uma política clara capaz de conscientizar a população sobre como conservar os atuais recursos naturais, diminuir o impacto do adensamento populacional e recuperar áreas degradadas.

“Dentro dessa perspectiva, há um potencial muito grande para um turismo ambiental sustentável, por exemplo. Se você tem uma política efetiva de conservação nessas áreas, é possível explorar ainda mais um potencial turístico responsável”, sugere.

O professor da UnB ressalta ainda que esse grande potencial para o turismo deve ser aproveitado a partir de um planejamento ecológico, uma política informativa e o cuidado com as licenças ambientais.

Potencial turístico

O brasiliense Thiago Luz, 39, enxerga uma enorme lista de possibilidades na cidade ligada aos recursos hídricos há muito tempo. Marinheiro há 15 anos, ele “navega pelo Lago Paranoá desde menino” e montou um negócio de aluguel de barcos e lanchas para eventos. Com a pandemia, decidiu se reinventar e passou a guiar trilhas pela região onde cresceu.

“Eu nasci no Park Way, meus avós chegaram aqui em 1962 e estavam na lista dos primeiros moradores da região. Desde criança, costumava sair por aí cavalgando e pedalando, e conheci muito da riqueza dessa área. Com a pandemia, passei a ver isso como uma forma de renda”, explica.

Agora, ele guia pequenos grupos em um passeio cultural pelas trilhas do Park Way, enquanto conta histórias do nascimento de Brasília, caminha pelos trilhos da ferrovia — com atenção aos trens que ainda passam por ali — e oferece uma viagem no tempo que, como não poderia faltar, termina em uma bela cachoeira.

“O Park Way também é uma opção de turismo que vem crescendo bastante, a comunidade está bem participativa e eles também estão se reinventando. Eu acho que as trilhas aqui do DF não deixam a desejar quando comparadas às outras no Brasil, aqui na região, inclusive, temos essa trilha fantástica, que guarda tamanha diversidade, histórias e paisagens”.

Para fazer o passeio, basta contatar o Thiago e eleger alguma das opções que ele oferece — desde uma cavalgada pela trilha, o passeio cultural até uma noite em um motorhome ideal para acampar com as crianças. Ele atende no telefone: (61) 99904-2368.

Atrações com DNA brasiliense

Quem diz que o céu é o mar de Brasília sabe bem a beleza da atmosfera da capital. No entanto, a expressão poderia ser mais abrangente. Mesmo sem a imensidão da água salgada, não faltam atrações aquáticas para refrescar os dias quentes e secos que frequentemente moldam o período de seca no Cerrado.

Confira uma lista de atrações de água doce em Brasília, além do tradicional mergulho no famoso Lago Paranoá. É importante ressaltar que, durante a pandemia, alguns atrativos podem ter sofrido mudanças para garantir as medidas de segurança e distanciamento. Antes de ir, entre em contato.

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Fonte: https://www.metropoles.com/vida-e-estilo/turismo/um-roteiro-turistico-pelas-aguas-que-banham-a-capital

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